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Alvenaria Estrutural em perspectiva

Edifícios Altos, Industrialização e o Futuro da Construção. Um caderno técnico do Seminário de Alvenaria Estrutural realizado pelo C3 — O Clube da Construção Civil, com todo o conteúdo dos 15 palestrantes, painelistas e debates organizados em três níveis de leitura.

Data
10 de junho
Horário
7h às 12h30
Local
Milenium Centro de Convenções
Endereço
Rua Dr. Bacelar, 1043 — Vila Mariana, São Paulo/SP
Mapa visual

A jornada em uma linha do tempo

Do teto histórico de 16 pavimentos à disciplina de industrialização: os dois painéis do seminário costurados em uma leitura contínua.

Painel 01

Edifícios Altos em Alvenaria Estrutural

Da concepção arquitetônica ao desempenho dos materiais: como a alvenaria chegou a competir em altura.

Verticalização

A alvenaria estrutural rompeu o teto histórico de 15–16 pavimentos e hoje projetos bem concebidos alcançam 24 a 26 andares — em alguns casos sem artifícios estruturais adicionais.

Arquitetura

A alvenaria é um sistema: modulação, geometria laminar (~1:4), simetria e continuidade de paredes são decisões arquitetônicas de natureza estrutural.

Cálculo

Cinco estratégias vencem a altura — paredes alongadas, largura colaborante, pórticos, substituição parcial por concreto e primeiros pavimentos em concreto —, sendo a melhor geometria de planta a mais sofisticada.

Abertura8h – 8h15

Abertura Oficial

Rodolfo ZagalloCEO — C3, O Clube da Construção Civil

16 anos de C3, a origem do seminário e o formato Conexões: painéis temáticos com debate ampliado.

Abertura institucional

O evento foi aberto por Rodolfo Zagallo, CEO do C3, celebrando a trajetória do Hub em seu 15º ano de atuação. Em tom de agradecimento, recebeu o público — incluindo muitos participantes novos — e reforçou o papel do C3 como catalisador de inovação, networking e desenvolvimento do setor.

Zagallo apresentou o Hub como um clube de negócios e relacionamento que reúne presidentes e diretores das principais construtoras e incorporadoras, fundos de investimento, grandes escritórios de arquitetura e fornecedores — o que o C3 chama de "matriz de sucesso".

Responsabilidade como valor central

O vídeo institucional que marcou o início de 2026 trouxe como tema central a responsabilidade — para o C3, não um discurso, mas atitude que se materializa "dia após dia, decisão após decisão". Zagallo reforçou que a responsabilidade vai além dos negócios e eventos: trata-se de compreender o impacto da construção civil na vida das pessoas e no futuro das cidades.

A origem do seminário e o formato Conexões

A iniciativa nasceu de uma provocação de Marcos Barral, CEO da Oterprem, em meio à intensa pauta de industrialização promovida pelo C3. A edição anterior, na sede do Hub, reuniu 75 participantes e evidenciou a demanda do mercado.

Fiel ao conceito Conexões, o seminário elege um macrotema e o desdobra em painéis: 2 painéis temáticos, cada um com 1 palestrante e 4 painelistas de 10 minutos, seguidos por um painel de debates de 40 a 60 minutos.

Mediação

Mediação do Seminário

Alexandre BritezDiretor — Holding GP&D

Engenheiro civil com passagem pela Cyrela e formação na Poli-USP conduz o encontro em três eixos: novas soluções técnicas, qualificação profissional e integração da cadeia.

Perfil do mediador

À frente da condução do seminário, o C3 convidou Alexandre Britez, Diretor da Holding GP&D. Formado em Engenharia Civil em 2001 pelas Faculdades Integradas Nove de Julho (atual UNINOVE), iniciou sua vivência prática ainda no segundo ano da graduação, em 1998, atuando diretamente em canteiros. Em 2004 foi aprovado no Mestrado Acadêmico da Poli-USP, onde defendeu dissertação sobre revestimentos.

Entre 2005 e 2017 esteve na Cyrela, liderando as áreas de Gestão da Qualidade, Desenvolvimento Tecnológico e Produção Sustentável. Em 2017 fundou a GP&D — Gestão de Projetos & Desenvolvimento, hoje uma holding com quatro empresas, mais de 200 clientes e cerca de 150 projetos simultâneos.

Papel no seminário

A escolha de Britez para a mediação não foi casual. Reconhecido por sua habilidade em promover debates produtivos e integrar diferentes visões do mercado, encarnou o papel de articulador do conceito Conexões: colocar todos os elos da cadeia para dialogar em alto nível.

Iniciou sua participação contextualizando os principais desafios e oportunidades do sistema construtivo da alvenaria estrutural, reforçando três eixos que atravessariam todo o evento: a busca por novas soluções técnicas, a qualificação profissional e a integração entre os elos da cadeia produtiva.

Palestra8h15 – 8h45

Visão da construtora sobre edifícios altos em alvenaria estrutural

Julia ManoelDiretora de Projetos e Legalização — Grupo Kazzas

Da limitação histórica de 16 pavimentos ao case Quaddra Butantã: por que verticalizar em alvenaria estrutural exige decisões desde a compra do terreno.

Perfil e a pergunta central

Julia Manoel abriu o ciclo técnico com uma provocação: o que impulsionou a discussão e a necessidade de aumentar o número de pavimentos em alvenaria estrutural? Recuperou a trajetória do sistema — dos edifícios de cinco pavimentos sem elevador à concepção de que a alvenaria alcançaria, com bom desempenho, 15 a 16 pavimentos — patamar hoje superado pela evolução técnica e pela demanda do mercado.

Adotando deliberadamente uma visão de negócio, apresentou o portfólio recente do Grupo Kazzas como prova dessa evolução, do econômico ao médio-alto padrão. O empreendimento Quaddra Butantã, com 1.200 unidades e escala expressiva, marcou a ruptura do teto histórico de 16 pavimentos no portfólio da incorporadora.

Pré-obra: pensar a estrutura desde a compra do terreno

Julia defendeu que, na alvenaria estrutural, as decisões críticas acontecem antes da obra e, muitas vezes, antes da aquisição do terreno. Entre os desafios de pré-obra: flexibilidade de tipologias e áreas comuns (hoje contornada com artifícios de projeto e tipologias menores); a limitação de pé-direito de 2,70 m usual; implantação em terrenos cada vez mais irregulares exigindo escalonamentos e "dentes"; pontos de graute, recortes de fachada e travamentos que impactam custo; e o posicionamento de instalações e reservatórios superiores, decisivo em empreendimentos que "nascem do chão", sem subsolos.

Ensaios tecnológicos: em busca de novos patamares

Julia compartilhou o estudo desenvolvido pela Kazzas em parceria com o Prof. Paulo Helene, com a colaboração de Cláudio Oliveira (ABCP), a partir da concepção de um edifício de 32 pavimentos. Foram avaliados blocos de 24 MPa e 30 MPa, com performance semelhante; os esforços se concentraram no bloco de 24 MPa, com resultados promissores.

O estudo evidenciou fatores determinantes: o transporte e a chegada dos blocos ao canteiro, a limpeza das superfícies para garantir aderência do graute e da argamassa e o cuidado na montagem dos prismas. Concluída a fase de ensaios, a Kazzas avançava, à época do seminário, para a aplicação em obra e um projeto-piloto.

Considerações finais

Ao encerrar, Julia sintetizou os pilares para verticalizar em alvenaria estrutural: legislação e parâmetros urbanísticos como vetor da verticalização; condições favoráveis à execução (custo competitivo, otimização de prazo, previsibilidade, produtividade e repetitividade); projeto e produto com premissas corretas desde a concepção; e alinhamento de todos os envolvidos desde o conceito do empreendimento.

Levantou também uma agenda para o setor: as normas técnicas precisam acompanhar a verticalização — segurança contra incêndio (escadas acima de 80 m), desempenho de elevadores (efeito pistão) e demais sistemas — demandas que extrapolam o sistema construtivo e convocam todas as áreas a evoluírem em conjunto.

Painelista8h45 – 8h55

Projetos arquitetônicos para prédios altos

Márcio LuongoSócio-titular e CEO — RubioLuongo Arquitetos

Modulação, geometria laminar, simetria e o cuidado com o pavimento de transição: a arquitetura como primeira decisão estrutural.

Entender que a alvenaria é um sistema

Complementando Julia Manoel, Márcio centrou sua fala em um princípio: a arquitetura precisa compreender que a alvenaria estrutural é um sistema no qual as paredes deixam de ser fechamento e passam a ser a estrutura do edifício, o que impõe limitações de vãos, comprimentos e alturas. Daí a defesa do raciocínio modular como forma de proteger o projeto de alterações que inviabilizem sua implantação.

Geometria: forma laminar, simetria e continuidade

Em prédios altos, o fator determinante não é apenas a carga vertical, mas a ação do vento. Márcio destacou a busca por proporções próximas de 1:4 (forma laminar), a simetria e o equilíbrio da torre (torres desequilibradas separadas por juntas se comportam como dois edifícios distintos) e a continuidade de paredes: alinhamentos contínuos colaboram; reentrâncias interrompem. Desníveis estruturais são especialmente críticos na direção transversal.

Terrenos complexos e implantação

Acompanhando a tendência da construtora, Márcio destacou que os terrenos cada vez mais irregulares exigem soluções criativas — o escritório já desenvolveu empreendimentos em L, U e triangulares (esses em parceria com o engenheiro Luiz Sérgio Franco), ainda que formas mais regulares ofereçam maior estabilidade. Sobre circulação e núcleo: o núcleo central (torre laminar estreita) atende bem à proporção 1:4, mas alargar a base ganha altura ao custo de vazios e área comum.

O pavimento de transição e a laje pré-moldada

Um dos pontos mais ricos foi o tratamento das transições onde a estrutura convencional dá lugar à alvenaria: a escada muda de concepção, a vedação muda de comportamento, a locação de pilares deve preservar o produto e os elevadores, e shafts e prumadas precisam contornar vigas de transição. Márcio alertou que transições que avançam para quase metade do edifício descaracterizam o sistema.

No empreendimento Arena 3, a equipe adotou uma solução mista combinando alvenaria estrutural com laje pré-moldada — eliminando fôrmas e elevando o índice de industrialização. A solução exige, contudo, ferramentas de cálculo mais elaboradas, já que a laje é um apoio mais flexível que as vigas convencionais.

Preconceito e alto padrão

Provocado sobre o estigma que associa a alvenaria a empreendimentos econômicos, Márcio, com a concordância de Julia, reconheceu que ele persiste. Sua posição: qualquer tipologia pode ser executada em alvenaria estrutural, desde que respeitada a vocação do empreendimento e o limite de flexibilização das unidades — ponto sensível na sede por personalização típica do alto padrão.

Painelista8h55 – 9h05

Desafio em projetos estruturais de alta performance

Claudio PugaPresidente — Claudio Puga & Engenheiros Associados

De 4 a mais de 26 andares: cinco estratégias de engenharia para vencer a altura sem descaracterizar o sistema.

Alvenaria sobre alvenaria — e a questão da confiabilidade

Puga posicionou a estrutura como o subsistema desafiado a viabilizar edifícios de alvenaria cada vez mais altos. O conceito permanece elegante em sua simplicidade — "alvenaria sobre alvenaria" —, especialmente eficiente em edificações com unidades menores. A questão central é a confiabilidade: a alvenaria é realmente confiável para subir mais alto? Foi esse debate que o C3 propôs amadurecer.

A evolução histórica: de 4 a mais de 26 andares

Nas décadas de 1970 e 1980, falava-se em "térreo mais quatro"; oito andares já eram ambiciosos e doze representavam o limite prático — um edifício de dezesseis pavimentos em São José dos Campos era visto quase como um arranha-céu. Nos anos 1990 começou a expansão consistente do sistema no Brasil. Hoje, projetos bem concebidos alcançam 24 e 26 andares, em alguns casos sem artifícios adicionais. Essa trajetória só foi possível porque o cálculo estrutural evoluiu junto com os materiais.

Cinco estratégias para vencer a altura

1) Paredes alongadas — quanto maior o comprimento, maior a rigidez e o momento de inércia. 2) Largura colaborante das paredes transversais — aumenta a inércia do conjunto, permitindo maior resistência aos esforços. 3) Pórticos — mais eficientes que o "núcleo rígido", segundo Puga, quando a edificação se torna muito alta. 4) Substituição parcial por paredes de concreto nos primeiros pavimentos, quando os prismas não suportam as tensões — resolve ganhar andares, mas prejudica muito a execução. 5) Primeiros pavimentos em concreto armado, com pavimento de transição de pé-direito mais alto sustentando a alvenaria acima.

A solução mais sofisticada, porém, é a melhor geometria de planta: estudar formatos e aproveitar corredores como enrijecedores permite alcançar 26 andares sem recorrer a artifícios. A forma arquitetônica, quando concebida em diálogo com a estrutura, torna-se a própria solução de inovação.

Transições e o desafio do cálculo

As vigas de transição (1,20 m a 1,80 m conforme a altura) são mais econômicas em material, mas morosas e grandes consumidoras de fôrma, penalizando prazo. As lajes de transição protendidas (planas ou semiplanas) ganham espaço por reduzirem o tempo de execução, exigindo atenção redobrada nos pontos críticos de cada solução.

A integração com lajes pré-moldadas altera o comportamento estrutural — a parede passa a apoiar-se sobre elemento mais flexível — e demanda ferramentas de cálculo mais adequadas. Puga mantém um grupo de estudo com diversos projetistas dedicado a esses temas.

Painelista9h05 – 9h15

Controle tecnológico e normas aplicadas à alvenaria estrutural

Cláudio OliveiraGerente de Inovação e Sustentabilidade — ABCP

Do bloco maduro ao prisma frágil: por que qualificar laboratórios e criar o interlaboratorial do prisma é a próxima fronteira.

A maturidade do bloco: um caminho já percorrido

Cláudio Oliveira deslocou o debate do projeto para um terreno igualmente decisivo: a confiabilidade do que efetivamente chega à obra. Em alvenaria estrutural, a segurança do edifício não depende apenas do cálculo, mas da garantia de que bloco, argamassa e graute apresentem, na prática, o desempenho previsto em projeto.

Para Oliveira, o setor dispõe de um exemplo bem-sucedido no próprio bloco de concreto: Selo de Qualidade consolidado, PSQ estruturado, normas consistentes com a NBR 6136 e ensaio interlaboratorial já estabelecido. Um roteiro replicável para os elos ainda em amadurecimento.

O gargalo do prisma

O ponto central foi o prisma — corpo de prova que combina bloco, argamassa e, quando preenchido, graute, e que serve de referência para o projetista confiar na resistência do conjunto. O problema não está na norma, mas na execução do ensaio: prismas mal moldados entregam ao projetista um número que não corresponde à realidade da obra, comprometendo toda a cadeia de confiança. É preciso tratar o "berçário de prismas" como um berçário nobre, com atenção redobrada também ao transporte dos corpos de prova.

Desvio padrão: material ou operação de ensaio?

Oliveira trouxe um esclarecimento decisivo para incorporadoras e construtoras: ao analisar o desvio padrão, é preciso distinguir a variabilidade intrínseca do material do erro introduzido pela forma como o ensaio é conduzido. "Muitas vezes penalizamos um material pelo desvio padrão de operação de ensaio", alertou — o que reforça a necessidade de qualificar os laboratórios, e não apenas os insumos.

Comunidade da Alvenaria e alerta sobre aderência

A ABCP, em parceria com a Bloco Brasil e o Sinaprocim, lançou a Comunidade da Alvenaria com o objetivo de levar ao prisma o mesmo nível de governança do bloco: regular o ensaio, qualificar laboratórios, estruturar um interlaboratorial e integrar o setor de argamassas ao debate.

Um alerta relevante e pouco discutido: a aderência muda muito com a resistência do bloco. Blocos de alta resistência comprometem a aderência se usados com a mesma argamassa — logo, exigem argamassas específicas, sob pena de comprometer o desempenho do sistema justamente nos empreendimentos mais ambiciosos.

Painelista9h15 – 9h25

Grautes de alto desempenho

Guilherme ChavesDiretor Técnico — Concreserv

Cada célula grauteada é um elemento estrutural: fluidez, repetibilidade e certificação como base da previsibilidade.

O graute acompanhou a evolução da alvenaria?

Guilherme Chaves abriu com uma provocação: a alvenaria estrutural é uma das metodologias mais eficientes empregadas no país e evoluiu significativamente nos últimos anos — mas o graute utilizado hoje acompanhou essa evolução? Sua tese: o setor segue aplicando praticamente o mesmo conceito de décadas atrás a uma realidade completamente diferente, marcada por edifícios mais altos e maior responsabilidade estrutural.

O conjunto da obra: cada célula grauteada importa

O princípio orientador foi o "conjunto da ópera": embora a norma não fixe desempenho específico para o graute, é o prisma que traduz o comportamento real do sistema. Cada célula grauteada é, em si, um elemento estrutural, e o fornecimento precisa atender a fluidez, preenchimento, durabilidade, controle, rastreabilidade e repetibilidade — em conjunto.

Certificação como previsibilidade

Chaves apresentou os programas de qualidade conduzidos junto à ABNT, com auditoria anual das empresas certificadas, e foi enfático: comprar graute certificado é comprar previsibilidade. No Brasil, ainda marcado por fornecedores que operam sem responsável técnico, a certificação e a auditoria despontam como caminho para reduzir a necessidade de contraprovas e elevar a maturidade do setor. Enquanto a confiança do projetista depender do ensaio em obra, o mercado permanecerá preso a um modelo de baixa eficiência.

Logística como pênalti — e como campo de ganho

Mesmo com o material tecnicamente resolvido, é na logística que se concentra o maior risco e o maior potencial de ganho. Transporte e bombeamento configuram um dos "pênaltis" da alvenaria estrutural, e a fluidez deixa de ser apenas requisito de preenchimento para se tornar fator decisivo de eficiência operacional no canteiro — tema que seguiria em debate no segundo painel.

Debate9h25 – 10h00

Painel de Debates — Bloco 1

Mediação: Alexandre BritezCom Julia Manoel, Márcio Luongo, Claudio Puga, Cláudio Oliveira e Guilherme Chaves

Preconceito e alto padrão, o interlaboratorial do prisma, certificação de fornecedores e o poder de compra como indutor de qualidade.

Preconceito e alto padrão: o limite da personalização

A bancada reconheceu que o estigma persiste. Márcio Luongo defendeu que a alvenaria é um sistema e que tudo precisa "casar" com sua lógica — qualquer elemento fora dela representa mais tempo, etapas e dificuldade. Sua posição: qualquer tipologia pode ser executada em alvenaria estrutural, desde que respeitada a vocação do empreendimento e o limite de flexibilização das unidades. Julia Manoel apontou fator adicional (percepção em torno de sistemas como o drywall) e destacou que a sede por intervenção no alto padrão vai além do que o projeto consegue prever, mesmo com flexibilizações.

O prisma em foco

Marcos Barral (Oterprem), um dos responsáveis pela idealização do evento, indagou Cláudio Oliveira sobre como fazer o interlaboratorial junto aos principais laboratórios. Oliveira recorreu ao caso bem-sucedido do bloco como roteiro replicável — hoje o bloco dispõe de selo, PSQ, normas consistentes e ensaio interlaboratorial estabelecido — e propôs coordenar a agenda via Comunidade da Alvenaria: primeiro a melhoria da execução, depois a qualificação dos laboratórios, "porque não é qualquer laboratório que faz isso de forma eficiente".

Certificação versus custo: uma cobrança do próprio mercado?

Levantou-se: se o controle tecnológico representa centenas de milhares de reais por obra, por que não estabelecer que as concreteiras necessariamente tenham certificação, deslocando a confiabilidade para a origem? A experiência da Cyrela em obras na Alemanha foi trazida — lá, a responsabilidade pelo desempenho do material recai sobre o fabricante, não sobre o construtor —, dialogando com a tese de Guilherme Chaves: comprar graute certificado é comprar previsibilidade.

O poder de compra como vetor de qualidade

Um representante setorial, atuante no PSQ de blocos e argamassas colantes, anunciou o desenvolvimento do PSQ de argamassas básicas de assentamento e revestimento. Diagnóstico: cerca de 95% das argamassas ainda são viradas em canteiro. A mensagem tocou o público estratégico: quando as grandes empresas começam a exigir de um grupo prioritário, os demais migram para a cultura de certificação.

Case da plateia: Arena Kazzas Itaquera

A plateia trouxe cases próprios. Uma pergunta a Julia Manoel abordou o Arena Kazzas Itaquera, que combina estrutura convencional com alvenaria estrutural e adota alvenaria + laje pré-moldada. O tema conectou espontaneamente as falas de Márcio (empreendimento Arena) e Puga (ferramentas de cálculo para apoios mais flexíveis) — evidenciando a coerência técnica do bloco.

Painel 02

Potencial de Industrialização na Alvenaria Estrutural

Da racionalização à produção em escala: disciplina de canteiro, materiais industrializados e visão sistêmica.

Produção

Alvenaria estrutural em altura é gestão de produção: logística vertical, ciclo de pavimento, mão de obra qualificada e projeto para produção definem se o sistema entrega a promessa.

Integração

Ações organizacionais elevam o grau de industrialização de um processo já racionalizado — a produtividade nasce antes do canteiro, na coordenação entre sistemas.

Tendências

Brasil como referência global sediando congresso mundial em 2030; NBR 6136 revisada; BIM consolidado; estruturas mistas; nova geração de componentes; Jornada de Baixo Carbono.

Abertura de bloco10h30 – 10h45

Abertura do Bloco 2 — Potencial de Industrialização

Alexandre Britez (condução)Sequência do bloco anterior — da verticalização à industrialização (agenda também sinalizada por Rodolfo Zagallo)

Se o Bloco 1 provou que é possível ganhar altura, o Bloco 2 pergunta: como produzir melhor, com mais previsibilidade, eficiência e escala?

Da verticalização à industrialização

A transição não é casual: se o Bloco 1 discutiu altura, desempenho e materiais, o Bloco 2 amplia a lente para responder como transformar esse conhecimento técnico em produção eficiente e escalável. Alexandre Britez posicionou o segundo momento como uma provocação ao setor, especialmente para empresas que já operam em alta escala e buscam consistência operacional.

Britez destacou que a alvenaria estrutural, por sua natureza modular e repetitiva, tem características que favorecem a industrialização, mas ainda depende de evolução em integração entre disciplinas, planejamento de produção, logística de canteiro e padronização de processos.

Palestra10h45 – 11h15

Desafio da produção para edifícios altos

Cristiano MoraesDiretor Técnico — Cury Construtora

Logística vertical, ciclo de pavimento, mão de obra e projeto para produção: o que muda quando a alvenaria passa de 10 para 24 pavimentos.

A Cury e a escala como laboratório

A Cury figura entre as maiores construtoras e incorporadoras do Brasil, com atuação intensa no segmento popular e de médio padrão — onde a alvenaria estrutural é o sistema dominante. Essa escala não é apenas tamanho: é laboratório de produção, onde qualquer desvio se amplifica e qualquer ganho se multiplica. Foi a partir dessa realidade concreta que Cristiano estruturou toda a apresentação.

Logística vertical: o canteiro que vai ao topo

Em edifícios de 8 a 10 pavimentos, o problema é gerenciável; em 20 ou mais, o transporte vertical vira gargalo determinante. Elevadores e cremalheiras disputam ciclos; blocos e argamassa exigem chegada certa no pavimento certo, sem estoques intermediários que comprometam segurança ou avanço; e o bombeamento do graute em altura exige fluidez e consistência crescentes — tema que dialoga diretamente com Guilherme Chaves.

Ciclo de pavimento: coração da produção em escala

É o principal indicador de produtividade e o mais monitorado. À medida que o edifício sobe, laje (escoramento e desforma), transições e controle de prumo e alinhamento se tornam progressivamente mais exigentes. A margem de tolerância é cada vez menor — em alta performance, o ciclo é um sistema de produção que precisa ser desenhado e controlado como uma linha de manufatura.

Mão de obra e controle tecnológico

Um dos maiores limitadores de escala é o pedreiro de alvenaria estrutural: execução correta exige treinamento e disciplina ainda escassos. Supervisão em múltiplos andares simultâneos e rotatividade elevada tornam a curva de aprendizado um custo constante. Na Cury, controle de prismas, verificação da consistência do graute e monitoramento das condições de assentamento são rotina — não burocracia, mas garantia de desempenho em volume.

Projeto para produção e industrialização como disciplina

As decisões de projeto têm impacto direto na eficiência: modulação e compatibilização entre disciplinas evitam quebras e retrabalho; transições mal detalhadas comprometem sequenciamento; shafts e prumadas mal posicionados afetam produtividade. Em edifícios altos, o improviso tem custo exponencial.

Para Cristiano, industrialização não significa necessariamente componentes pré-fabricados off-site, mas sim a disciplina de produção: padronização de processos, controle rigoroso, planejamento detalhado, rastreabilidade e melhoria contínua baseada em dados. Bem gerida, a alvenaria estrutural já carrega o DNA da produção industrializada — falta sistematizar o potencial.

Painelista11h15 – 11h25

Racionalização na integração dos sistemas construtivos

Luiz Sérgio FrancoSócio-diretor — ARCO

A alvenaria já é racionalizada por natureza. O próximo passo é industrializar o organizacional: integração entre arquitetura, estrutura, instalações, fachadas e logística.

Racionalizar para integrar

Luiz Sérgio Franco conduziu a discussão para um ponto essencial: antes de falar em sistemas plenamente industrializados, é preciso compreender o papel da racionalização como base da integração entre projeto, produção e desempenho. A alvenaria estrutural já é, por natureza, um sistema racionalizado — seu potencial está na repetição, na coordenação dimensional, na padronização e na capacidade de transformar decisões de projeto em processos executivos previsíveis.

Ações organizacionais e grau de industrialização

O avanço não depende apenas de novos materiais ou equipamentos, mas de ações organizacionais: procedimentos, planejamento, coordenação, padronização e gestão. Essas ações elevam o grau de industrialização de um processo já racionalizado e produzem efeitos diretos sobre resultados econômicos (redução de perdas, retrabalhos e improvisações), planejamento (menor incerteza sobre prazos), eliminação de desperdícios (materiais e horas produtivas) e desempenho e qualidade (processos mais estáveis e controláveis).

Integração dos sistemas: o edifício como conjunto

Uma decisão aparentemente localizada — posicionamento de uma prumada, tipo de laje, solução de fachada — pode alterar rendimento de mão de obra, consumo de materiais e sequência de execução. Por isso, a integração precisa acontecer desde as fases iniciais. Pontos críticos: arquitetura e modulação (repetição, paginação, aproveitamento de blocos); estrutura e lajes (ciclos, escoramentos, transições, estabilidade); instalações (shafts, passagens, rasgos, compatibilização); revestimentos e fachadas (tolerâncias, prazos, desempenho, manutenção); e logística de canteiro (abastecimento, fluxo, ritmo de pavimentos).

Planejamento, controle e cultura de processo

A evolução do sistema passa por planejamento executivo (sequências, frentes de trabalho, abastecimento, interfaces), procedimentos padronizados (métodos, critérios de conferência, parâmetros de aceitação) e aprendizado contínuo (uso dos dados de obra para aperfeiçoar projetos futuros). Como processo construtivo "aberto", a alvenaria pode ser moldada às necessidades e requisitos de cada empresa. O ganho não está apenas em executar mais rápido, mas em diminuir variabilidade — um dos grandes obstáculos históricos da construção civil.

Painelista11h25 – 11h35

Trends setoriais — o futuro da alvenaria

Fabiana MamedeSócia-diretora — Cubo Engenharia

Do MCMV ao alto padrão paulistano, do BIM às estruturas mistas, das normas atualizadas à jornada de baixo carbono: o Brasil como referência global.

O Brasil como protagonista global

Grande parte das tendências do setor nasceu de forma embrionária nas universidades e centros de pesquisa, ganhando escala por meio das associações representativas (ABCP, ABESC, Bloco Brasil). Historicamente reconhecido pelos recordes em concreto, o Brasil vive hoje um novo momento: o mundo construtivo volta os olhos para cá, consolidando o país como referência global em alvenaria estrutural de alta performance. A maturidade técnica é tão expressiva que o Brasil foi escolhido para sediar, em 2030, um dos maiores congressos mundiais dedicados ao sistema.

Dinamismo das normas técnicas

A NBR 6136 (blocos) foi recém-revisada, modernizando critérios de aceitação e controle. A norma de cálculo e procedimentos está em processo avançado de revisão, com expectativa de consulta pública no segundo semestre e publicação oficial em breve. E uma norma específica para alvenaria estrutural com junta fina de composto polimérico (argamassa polimérica) recém passou por consulta pública — marco importante para sistemas que buscam maior rendimento e redução de insumos tradicionais.

Da periferia ao endereço nobre — e à era do BIM

A alvenaria estrutural deixou o rótulo de tecnologia voltada exclusivamente a programas habitacionais. Hoje ocupa endereços de prestígio em São Paulo — Alto de Pinheiros, Bandeira Paulista, região da JK e Cardoso de Melo — como vantagem competitiva em prazo, custo e racionalização. Essa migração redefine o projeto: mais alto, plantas mais ambiciosas e maior integração com as demais disciplinas. O BIM eleva o detalhamento, antecipa interferências e organiza a paginação; a análise por pórticos espaciais permite abandonar simplificações conservadoras em favor de modelos que representam o comportamento real.

Estruturas mistas e nova geração de componentes

O maior salto talvez esteja nas estruturas mistas: concreto + alvenaria com pavimentos de transição, pré-moldados integrados, transições protendidas e ATP (Argamassa de Trabalhabilidade Prolongada) como apoio à produtividade. No campo dos componentes: blocos de alturas especiais (11 cm, 14 cm) ampliam a modulação; o bloco acústico ("rosa") responde às novas exigências de desempenho; blocos de altíssima resistência viabilizam edifícios mais altos; blocos de grandes dimensões (como o de 59 cm) aumentam a produtividade do assentamento. Nas argamassas e grautes, argamassas industrializadas (ensacadas ou em silo) trazem padronização; grautes de 40 a 50 MPa atendem solicitações mais severas.

Sustentabilidade e a jornada de baixo carbono

A busca por soluções de baixo carbono deixou de ser exclusividade acadêmica e passou a moldar ferramentas de mercado. Destaque para a Calculadora de Baixo Carbono (CAIXA e USP) — inicialmente focada em parâmetros de programas habitacionais, com tendência de expansão para todos os perfis — e a Jornada de Baixo Carbono para Blocos de Concreto, liderada pela Bloco Brasil e associados: roteiro acessível e gratuito com diretrizes estratégicas para impulsionar a transição do setor.

Painelista11h35 – 11h45

Cuidados em execução e conferência para garantir a integralidade da alvenaria

Bianca Ramos de AbreuGerente de Qualidade e Desenvolvimento Tecnológico — Cyrela

48 obras em alvenaria estrutural na Cyrela, uma FVS com 51 itens e uma tabela que calcula automaticamente a espessura da primeira fiada.

A escala da alvenaria estrutural na Cyrela

O grupo conta com 48 obras em alvenaria estrutural, com perfis variados: Vivaz (apartamentos de ~24 a 36 m², obras chegando a 24 pavimentos), Living (estúdios de 24 m² a apartamentos de 150 m², até 22 pavimentos em alvenaria e até 5 em concreto armado) e Cyrela (obras 100% em alvenaria em unidades de 60 a 90 m², além de empreendimentos mistos). Não basta executar bem uma obra — é preciso garantir que o mesmo padrão técnico se repita em dezenas de canteiros.

Padronização e ponte projeto–canteiro

A Cyrela integra projeto, projetistas, qualidade e canteiro. A participação dos projetistas nos protótipos executivos foi citada como prática valiosa de treinamento. A partir disso, organiza-se: workshop de produtividade (Lean); treinamento técnico prévio obra a obra; retroalimentação a partir de visitas mensais e protótipos; e treinamento prático de FVS em turmas menores, na obra, com foco nos critérios de conferência.

FVS e controle da execução

A Ficha de Verificação de Serviço tem 51 itens de conferência, organizados por etapa e referenciados conforme os critérios normativos aplicáveis, especialmente a NBR 16868. O procedimento já está na revisão 30 — nenhum item pode estar desconectado do que é exequível na obra. Ponto crítico destacado: mapeamento da laje e definição da espessura da primeira fiada. A tabela formulada da Cyrela recebe os valores do mapeamento e devolve automaticamente a espessura adequada, respeitando a faixa de 5 a 20 mm. A prática surgiu de uma constatação: postergar a correção do nível para a quinta fiada, quando a junta já deveria estar em torno de 10 mm com tolerância reduzida, gerava espessuras excessivas e comprometia o controle geométrico.

Materiais, detalhes executivos e vídeos de treinamento

A evolução do sistema vem também de detalhes aparentemente simples — tampas, dispositivos de proteção, uso de EVA — que evitam interferências, obstruções ou perdas de desempenho. A Cyrela investiu em vídeos de treinamento gravados na própria obra (com apoio da GP&D), aproximando procedimento e realidade de campo — estratégia especialmente relevante diante da escassez de mão de obra qualificada e da rotatividade entre equipes.

Painelista11h45 – 11h55

Argamassa pressurizada — argamassas industrializadas na alvenaria

Renato VittiConsultor Técnico Especialista — Votorantim Cimentos

O último elo a industrializar: virar argamassa em obra ainda é dominante, mas a norma e a escala pedem outra rota.

O papel da argamassa na industrialização

Renato Vitti posicionou a argamassa como o último elemento do sistema de alvenaria estrutural a atingir um nível mais elevado de maturidade industrial. Enquanto blocos, projetos e processos evoluíram significativamente, a argamassa ainda convive com dois modelos: produção virada em obra (altamente dependente de controle local) e fornecimento industrializado (com maior padronização e rastreabilidade). A questão central não é apenas técnica, mas operacional: qual modelo entrega previsibilidade, produtividade e segurança em escala?

Norma atualizada e lacuna de aplicação

A ABNT NBR 13281 (2023) redefiniu conceitos importantes — nova nomenclatura (argamassas inorgânicas), divisão entre aplicações (revestimento e assentamento/fixação) e maior rigor nos requisitos e métodos de ensaio. Ainda assim, Vitti alertou para um desalinhamento: enquanto o segmento de revestimentos absorveu parte dessas mudanças, o uso em assentamento estrutural ainda carece de difusão e aplicação consistente.

Virar em obra × industrializar

Virar em obra pode entregar desempenho adequado, desde que sejam cumpridos requisitos rigorosos: definição e validação do traço; controle dos insumos (especialmente areia — o exemplo prático foi o controle granulométrico com tubos de ensaio); padronização da água e dos aditivos; uso de equipamentos adequados (argamassadeira, não betoneira); produção próxima ao local de aplicação; e realização de todos os ensaios normativos. Sem esse controle, o risco de perda de resistência e desempenho é elevado — e a logística (produzir no térreo e transportar para pavimentos superiores) pode comprometer vida útil e produtividade.

A alternativa industrializada entrega traço já validado em laboratório, controle de qualidade padronizado, laudos técnicos para registro de obra e maior uniformidade entre lotes. O portfólio inclui argamassa de assentamento, chapisco e revestimentos, sistemas projetados (inclusive fachada) e fornecimento em sacos ou silos.

Controle tecnológico e responsabilidade técnica

Os ensaios devem ser realizados antes do início da obra e os resultados documentados e anexados ao diário — a responsabilidade recai sobre o responsável técnico legal. No caso de argamassas industrializadas, os laudos fornecidos pela indústria devem integrar esse processo, reforçando a segurança jurídica da obra e a confiabilidade do sistema como um todo.

Debate11h55 – 12h30

Painel de Debates — Bloco 2

Mediação: Alexandre BritezCom Cristiano Moraes, Luiz Sérgio Franco, Fabiana Mamede, Bianca Ramos de Abreu e Renato Vitti

O futuro do sistema, a lacuna de uma entidade representativa, certificação de fornecedores e o debate sobre pé-direito.

Até onde vai a alvenaria estrutural?

Uma pergunta marcou o debate: daqui a vinte anos, a alvenaria estrutural ainda será o principal sistema construtivo residencial do Brasil? Luiz Sérgio Franco adotou postura otimista e historicamente embasada — evolui desde os anos 1970 e ainda tem muito campo pela frente. Iniciou sua trajetória com o sistema em 1982, como estagiário do Prof. Sabatini na Poli, e não enxerga sistema pronto para substituí-la. Fabiana Mamede reforçou o crescimento, mas apontou uma lacuna: falta ao segmento uma entidade representativa que centralize estudos e impulsione a evolução de forma coordenada.

Certificação, controle e responsabilidade da cadeia

A discussão retomou eixos do primeiro bloco: seria o momento de o mercado exigir certificação obrigatória de concreteiras e fornecedores de graute, reduzindo a dependência de ensaios em obra? Em outros mercados — como a Alemanha, citada por um participante que visitou obras pela Cyrela — a responsabilidade pelo controle tecnológico recai sobre o fabricante. Guilherme Chaves, que havia detalhado o tema, reforçou: certificação não é apenas instrumento de qualidade, é ferramenta de previsibilidade e confiança de cadeia.

Pé-direito, normas e espaço para evolução

Um dos momentos mais ricos foi o debate sobre o pé-direito mínimo de 2,50 m (livre) e seu impacto nas decisões de projeto. Se o mercado valoriza cada vez mais ambientes mais altos, será que chegou a hora de rediscutir a limitação? A resposta foi equilibrada: espessura da junta nos primeiros andares e comportamento do conjunto impõem restrições reais, mas o tema merece entrar na pauta técnica das entidades — não como demanda isolada, mas como agenda de evolução do sistema.

Síntese: as perguntas certas

Após décadas de evolução, o setor chega a um ponto de maturidade que poucos países alcançaram com esse sistema. A alvenaria estrutural não está em declínio, está em transformação ativa: pressionada por alturas maiores, por exigências de industrialização, por demandas ambientais e por um mercado cada vez mais exigente. O que falta, segundo os especialistas, não é potencial — é ambiente favorável para que esse potencial se organize: associações representativas, normas atualizadas, certificação de materiais, integração entre projetistas e construtores.

Encerramento

Auditório para 260 pessoas lotado, corredores ocupados: a resposta do mercado a um tema erroneamente rotulado como antigo.

Rodolfo Zagallo compartilhou um comentário ouvido nos bastidores: o espanto de alguns profissionais diante de uma sala tão cheia para discutir um tema erroneamente rotulado como antigo. A resposta trazida pelo evento foi categórica: a alvenaria estrutural não é assunto do passado, mas sistema tecnológico em franca expansão. A percepção de estagnação ocorria apenas entre aqueles que não vinham acompanhando de perto o desenvolvimento técnico e as pesquisas discutidas ao longo dos dois cadernos de palestras.

Após convidar os painelistas do primeiro bloco ao palco para um registro oficial, Zagallo pediu expressamente que os executivos evitassem sentar apenas com colegas de suas próprias companhias — a instrução foi espalhar-se pelas mesas para interagir com diferentes frentes da cadeia produtiva. O avanço técnico no canteiro, segundo o C3, nasce muito antes da fundação: nasce na mesa em que construtores, projetistas e fornecedores sentam lado a lado.

Síntese estratégica

O que fica do seminário

Principais aprendizados

  • A alvenaria estrutural saiu do teto histórico de 15–16 pavimentos e opera hoje competitivamente em edifícios de 24 a 26 andares.
  • As decisões críticas do sistema acontecem antes da obra — do terreno ao projeto — e envolvem arquitetura, estrutura, instalações e logística de canteiro.
  • A confiabilidade do sistema depende do ensaio de prisma bem executado; a metodologia não muda, muda o cuidado do laboratório.
  • Cada célula grauteada é estrutural: fluidez, controle e repetibilidade fazem do graute um vetor de previsibilidade.
  • Industrialização não é apenas pré-fabricação off-site — é disciplina de produção: padronização, planejamento, rastreabilidade e dados.
  • A racionalização já existente na alvenaria só entrega valor quando organiza a interação de todos os subsistemas do edifício.
  • Escala exige padronização corporativa: FVS estruturada, protótipos executivos e treinamento prático transformam projeto em rotina de canteiro.
  • A argamassa industrializada desloca controle do canteiro para a indústria — a norma NBR 13281 (2023) reforça esse caminho.
  • Certificação de fornecedores é ferramenta de previsibilidade — a experiência internacional aponta a responsabilidade do fabricante como próximo salto.
  • Baixo carbono e novas normas (blocos, cálculo, junta fina polimérica) definem a agenda regulatória e ambiental dos próximos anos.

Tendências apontadas

  • Verticalização crescente com estruturas mistas (concreto + alvenaria, transições protendidas, lajes pré-moldadas).
  • Nova geração de componentes: blocos de alturas especiais, bloco acústico, blocos de altíssima resistência e de grandes dimensões; grautes de 40–50 MPa.
  • Consolidação do BIM e da análise por pórticos espaciais como padrão de projeto.
  • Movimento normativo intenso: NBR 6136 revisada, norma de cálculo em revisão avançada, norma de junta fina polimérica em consulta pública.
  • Governança emergente do prisma (ABCP + Bloco Brasil + Sinaprocim — Comunidade da Alvenaria).
  • Jornada de Baixo Carbono e Calculadora de Baixo Carbono como ferramentas de mercado.
  • Poder de compra dos grandes players como indutor de certificação e maturidade da cadeia.
  • Migração da alvenaria estrutural para endereços de alto padrão em São Paulo.

Impactos no setor

  • Construtoras e incorporadoras: verticalização em alvenaria vira alternativa competitiva no médio e alto padrão, não apenas no econômico.
  • Escritórios de arquitetura: modulação, geometria laminar e continuidade de paredes deixam de ser preferências para se tornarem parâmetros de viabilidade.
  • Projetistas estruturais: ferramentas de cálculo mais elaboradas tornam-se pré-requisito para lidar com estruturas mistas e apoios flexíveis.
  • Controle tecnológico: qualificação de laboratórios e interlaboratorial de prisma passam a pautar a próxima onda de maturidade.
  • Fornecedores de materiais: certificação, rastreabilidade e argamassas industrializadas ganham papel estratégico.
  • Setor como um todo: sem uma entidade representativa específica, a coordenação dos avanços seguirá dispersa — o congresso mundial de 2030 no Brasil aumenta a urgência.
Conclusão editorial

A alvenaria estrutural brasileira chega a um ponto de maturidade raro no mundo. Não está em declínio: está em transformação ativa, pressionada por alturas maiores, por exigências de industrialização, por demandas ambientais e por um mercado exigente em desempenho e prazo. O que falta não é potencial — é ambiente favorável para que esse potencial se organize.

Créditos

Créditos e Agradecimentos

Patrocinadores, apoio institucional, palestrantes e comitê técnico que viabilizaram o Seminário de Alvenaria Estrutural.

A realização do Seminário de Alvenaria Estrutural foi possível graças à colaboração de empresas, especialistas e instituições que atuam pelo fortalecimento técnico e pela evolução da construção civil brasileira. Reconhecimento aos patrocinadores — Concreserv (Master), Votorantim Cimentos e Oterprem (parceria estratégica) — e às empresas parceiras Anhanguera, Bela Vista, Hilti, Ibratin, Senior e Udiaço.

Registra-se também a gratidão pelo apoio institucional da ABCP, do PSQ, do Sinaprocim e do Sinprocim, entidades que endossaram a relevância normativa e técnica das discussões. Um agradecimento especial aos palestrantes, painelistas e às marcas que representam — KAZZAS, RubioLuongo Arquitetos, Claudio Puga & Engenheiros Associados, Cury, ARCO e Cubo Engenharia — bem como à ABCP, Concreserv e Votorantim Cimentos, também no papel de expositores técnicos. E, por fim, aos associados e profissionais presentes que lotaram o auditório do Milenium Centro de Convenções.

  • Patrocínio Master: Concreserv. Patrocínio: Votorantim Cimentos. Parceria estratégica: Oterprem.
  • Empresas parceiras: Anhanguera, Bela Vista, Hilti, Ibratin, Senior e Udiaço.
  • Apoio institucional: ABCP, PSQ, Sinaprocim e Sinprocim.
  • Marcas dos palestrantes e painelistas: KAZZAS, RubioLuongo Arquitetos, Claudio Puga & Engenheiros Associados, Cury, ARCO e Cubo Engenharia — além de ABCP, Concreserv e Votorantim Cimentos como expositores técnicos.